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Escuta psicanalítica: o que se pode escutar quando não se pode resolver

  • Foto do escritor: Alessandra Becker
    Alessandra Becker
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Setembro chega invariavelmente acompanhado de uma paisagem previsível. De repente, as telas se enchem de laços amarelos, frases de otimismo compulsivo e conselhos apressados sobre a importância da vida. Há uma pressa coletiva em transformar o sofrimento psíquico mais radical em uma hashtag inspiradora ou em uma cartilha de receitas de bem-estar.


Mas o que acontece quando uma dor não cabe em um slogan?



Quero destacar que não estou aqui desconsiderando a importância de falarmos sobre as dores psíquicas, mas buscando ampliar o olhar sobre elas.


No silêncio do consultório, o que a escuta psicanalítica recolhe

raramente encontra eco na maioria das campanhas. Quem chega a um estado de desamparo profundo não costuma buscar uma frase motivacional. Frequentemente, a formulação que escapa é de outra ordem: “Não é que eu queira exatamente morrer; é que eu queria apenas parar de sofrer”.


Esse "parar" não é um capricho, nem um pedido de conselho rápido. É o grito mudo de uma estrutura psíquica exausta de sustentar o peso de existir em uma sociedade que exige funcionamento contínuo, produtividade e felicidade obrigatória. Quando as defesas cedem e o sujeito se depara com o irremediável, o mercado responde oferecendo fórmulas e metas de superação. A psicanálise, por sua vez, parte de outro lugar: o reconhecimento de que há dores que não exigem conserto imediato, mas um lugar onde possam ser ouvidas em sua verdade mais íntima.


Poltrona de couro em consultório de psicanálise voltada para janela embaçada pela chuva

O espaço analítico não existe para oferecer soluções mágicas ou para fingir que a angústia não existe. Ele se constrói justamente como o lugar ético onde é possível suportar o não saber e acompanhar o sujeito quando ele mesmo já não vê saída. Falar sobre o sofrimento limite exige sobriedade, respeito à singularidade e, sobretudo, a recusa radical a qualquer forma de romantização ou banalização da dor.


Se você ou alguém que você conhece está atravessando um momento de sofrimento intenso e insuportável, saiba que o acolhimento profissional e sigiloso é fundamental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.


Há momentos em que o primeiro passo não é buscar uma resposta grandiosa, mas simplesmente abrir espaço para que a palavra encontre escuta e a dor encontre lugar para ser sustentada.




 
 
 

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